Amigos do Fingidor

domingo, 19 de novembro de 2017

sábado, 18 de novembro de 2017

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Canção sem esperança


Ao Paulo Graça,
navegante do insondável*


I

Não era ainda a hora de te escrever
por isso fui ao Averno
como fazíamos todas as sextas
e mergulhei meu sangue engordurado
em miligramas de moléculas de álcool

Mas já não havia o absinto de uso exclusivo dos românticos pálidos

II

Na passagem pelo Estige
sempre ponto obrigatório
vi que o alfanje prateado
sangrava recém-usado

Perguntei-me quem seria
o destinado a empunhá-lo

III

Ah, pântanos da memória
desabrochai em begônias
gardênias gerânios rosas
asfixiando o enxofre
que exalam vossas entranhas
palude paul pauis

IV

Ouço soluços ao lado
um espectro de mulher
a face descarnada as mãos trementes
implora-me um mísero trago
(ao fundo a music box
aspergia sobre nós
os nós de notas e sílabas
de um tango retrô-pós)

V

Em vão a busca prossegue
nos vãos dos leitos impuros

No Flagetonte ou no Aqueronte
meu corpo cambaleia relutante
sob o peso dos vícios
que me incutiu a nave de Caronte

VI

Às portas do Letes o dia se levanta
e eu sorvo o esquecimento
em lentos goles de quinino
(o líquido me queima os lábios e as entranhas
num rito de reencontro
com algo que não perdi)

VII

Por entre a turba apressada
meu corpo segue em direção contrária
na boca um gosto amargo
e um peso indefinido me oprimindo o peito
além de uma certeza

não era ainda a hora de te escrever



(*) O escritor Antônio Paulo Graça (23/11/1952–09/06/1998) estaria completando 65 anos na próxima quinta-feira.


João Gilberto interdito


A indigência financeira de João Gilberto é a metáfora viva da miséria intelectual do Brasil!

(João Sebastião – poeta nefelibata, filósofo de boteco, profeta do caos – refletindo sobre a interdição judicial do gênio de Juazeiro)

Má prática médica


João Bosco Botelho


Uma das primeiras estruturas laicas a reconhecer e legislar a prática médica atribuindo claramente deveres e direitos aos médicos e julgadores, além de estabelecer o valor do pagamento pelos serviços e penalidades pela má prática médica, foi o rei Hammurabi (1728-1686 a.C), da Babilônia, autor do código de Hammurabi.
Foram os membros da expedição arqueológica francesa de Morgan, nas escavações da acrópole da capital elamita de Susa, que encontraram o diorito negro contendo o código – hoje no Museu de Louvre, em Paris.
O Código de Hammurabi permite entender certos critérios, sempre em torno dos bons resultados, das leis que regiam a ação médica na Babilônia, governada pelo rei Hammurabi. Se pensarmos que as leis também exercem função de evitar conflitos, os artigos penalizando ou premiando o médico, por estarem na mesma coluna daquela regulamentando as profissões dos barbeiros, pedreiros e barqueiros, é possível pressupor um elo comum: se tratavam de categorias envolvidas em conflitos inquietantes à administração. Dessa forma, somente a ação do julgador, ligado ao poder dominador, estaria suficientemente organizado para julgar os conflitos geradores de conflitos sociais.
Torna-se necessário para a compreensão da importância das práticas médicas e julgadoras naquela região conhecer a divisão dos diferentes extratos sociais. O primeiro e mais importante grupo que compunha a sociedade babilônica, rigidamente hierarquizada, os awilum, homens e mulheres livres, funcionários da administração pública e pagos pelo rei, julgadores, escribas, sacerdotes, comerciantes, camponeses e grande parte dos soldados. O segundo grupo compreendia os muskenum. Apesar de os registros históricos serem escassos e não se saber exatamente o papel social desempenhado por eles, é possível pressupor que exercessem papeis intermediários entre os awilum e os escravos.
A regulamentação da ação médica contida no código de Hamurabi cita a inequívoca relação da ética do médico ligada aos bons resultados, onde o julgador é o árbitro absoluto.
–  215: Se um médico fez em um awilum uma incisão difícil com uma faca de bronze e curou o awilum ou se abriu a nakkaptum (supercílio) de um awilum com uma faca de bronze e curou o olho do awilum: ele tomará dez siclos de prata.
–  218: Se um médico fez em um awilum uma incisão difícil com uma faca de bronze e causou a morte do awilum ou abriu a nakkaptum de um awilum com uma faca de bronze e destruiu o olho do awilum: eles cortarão a sua mão.
–  219: Se um médico fez uma incisão difícil com uma faca de bronze no escravo de um muskenum e causou a sua morte: ele deverá retribuir um escravo como o escravo morto.


quarta-feira, 15 de novembro de 2017

terça-feira, 14 de novembro de 2017

Quem nasce para caba nunca chega a mangangá


Pedro Lucas Lindoso


O mangangá é um inseto de abdome largo e peludo, que tem uma função bastante nobre aqui na Amazônia. É o polinizador das castanheiras! Quem me falou sobre o mangangá foi João Grijó, amigo nascido em Anori, terra do bom açaí.
Ele me disse que o mangangá faz um zumbido alto quando voa e só as fêmeas possuem ferrão inoculador de veneno. Tem cor amarela ou negra e mede uns três centímetros.
Elas geralmente não picam. Só quando provocadas. Mas a picada é muito, muito dolorosa.
Perguntei ao João se ele já tinha sido picado por mangangá. Ele me disse que sim. O mangangá é como uma tucandeira voadora.
– Dói muito. Era rapaz e estava num castanhal quando fui picado. Na bunda! Corri para o rio, desabei. Em meio ao desespero, voltei. Rolava que nem me apercebi. Voltei, corri, caí e levantei. Rodopiei. Como um redemoinho! Parecia coisa do capiroto.
Lembrei-me de Guimarães Rosas que colocou o “demo” no redemoinho. E imaginei a dor do João. Só nós amazonenses temos uma vaga ideia do que seja a dor da tucandeira. E se ele disse que o mangangá era a tucandeira voadora, deve doer muito mesmo.
João Grijó me disse que levou várias bordoadas dos mangangás. E me explicou:
– Elas grudam. Não adianta abanar como se abana mosca ou carapanã. Meu dedo ficou tão, mas tão inchado que não conseguia mover. Ficou enorme. A dor é mesmo indescritível. Tem que correr para a água. E eu corri para o rio. Mas estava um pouco longe. Mas tem que correr. Para qualquer lugar. Tem que continuar correndo porque dói, mano. E muito!
Então o mangangá é como se fosse um tipo de caba, perguntei-lhe.
– Que nada. O mangangá é muito pior que as cabas. Eu conheço cabas. O pessoal do sudeste chama de marimbondo. Teve um cientista da Universidade que veio conversar comigo sobre cabas. O professor chamava as cabas de vespas sociais. Realmente, como ele explicou, as cabas constituem um grupo com elevada riqueza de espécies e muito comum também aqui na nossa região Amazônica.
Após nossa conversa, aprendi uma grande lição com João Grijó: “quem nasce para caba nunca chega a mangangá”.


domingo, 12 de novembro de 2017

sábado, 11 de novembro de 2017

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Canção para a moça clara


Zemaria Pinto


felino sorriso branco
no chão de cal da memória
alva em seu vestido neve
diáfana caçadora
nasce a moça na candura
da manhã feita de anil

cabelos de longa dança
e suaves tons amarelos
sopram seda sobre o colo
casulo onde a moça guarda
com rigores de clausura
vontades elementares

à sombra do véu que a veste
adivinho o ventre lânguido
feito de leite e de espuma
quando a moça num meneio
gira em torno da canção
que se revela aos meus olhos

em largos gestos de adeus
a moça cavalga o vento
gargalhando epifanias
deserdando-me de mim
clara clara plurialva
sob o sol do meio-dia

(mas os pentelhos da moça
só depois eu pude ver
são da cor noite-sem-lua
selva de negra folhagem
limalha palha fuligem
vertigens de anoitecer)


Mulheres Contemporâneas – no ICBEU



Alguns aspectos da ética médica romana


João Bosco Botelho


Após a conquista militar romana da Ásia Menor e da Grécia, nos anos vinte do século 2 a.C., ocorreu certo esvaziamento político-econômico de algumas cidades gregas que não interessavam ao poder romano. Muitos médicos dessas cidades migraram para cidades romanas importantes.
O conjunto organizador romano impôs controle da saúde pública aumentando a oferta de água potável por meio dos aquedutos, coleta dos esgotos, banhos púbicos, regras para o sepultamento fora do perímetro urbano, aterro dos pântanos e a presença do médico pago pelo poder público em muitas cidades.
No Império de Adriano, no século 2 d.C., os médicos foram dispensados do serviço militar e a maior parte das cidades romanas, mesmo as nos territórios conquistados, tinha médico remunerado pela administração pública.
Possivelmente, para suprir a demanda crescente de médicos nos novos territórios conquistados, Júlio Cesar ampliou as prerrogativas oferecidas por Diocleciano e ofereceu aos médicos os direitos de cidadão romano e prerrogativas fiscais.
Claudio Galeno, um dos mais conhecidos médicos romanos, no século 1, elaborou a teoria dos Quatro Temperamentos, ao adicionar um temperamento específico para cada um dos humores da teoria de Políbio: fleumático, sanguíneo, bilioso preto e bilioso amarelo. Desse modo, atenuou a excessiva generalidade da teoria dos Quatro Humores e possibilitou individualizar as possibilidades de as pessoas adoecerem quando abrigassem certo temperamento.
É possível que no fim do século 2 os médicos gregos ocupassem lugares destacados na estrutura administrativa da Medicina romana. Esse fato provocou forte resistência entre os cidadãos romanos mais cultos, gerando queixas pessoais e coletivas que fazem pensar que tenham se distanciado dos preceitos hipocráticos. Plínio, o Velho, no seu livro “Histórias Naturais” e o historiador Marco Pórcio Catão fizeram severas críticas pelos maus resultados dos médicos gregos.
Como resposta da administração aos descaminhos éticos, no fim do século 3, o imperador Júlio Cesar assinou a Lei Aquília e a Lei Cornélia que puniam severamente a prática do aborto e com o banimento dos médicos que provocassem a morte do doente.
O Direito romano, mais amplo e generalista se comprado ao grego, atravessou o medievo e se manteve estruturante durante doze séculos por meio do Corpus Júris Civilis.
Um dos mais importantes acervos romanos, em parte oriundo da Grécia platônica, amalgamando a Medicina e o Direito, se estruturou na compreensão do Direito Natural na obra de Cícero: “Há uma lei verdadeira, segundo a natureza, difundida entre todos os homens, constante e eterna” (De República, 3, 33,33).

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

terça-feira, 7 de novembro de 2017

Madrigal Amazonas em concerto na AAL


Dia 08/11, às 19h, na Academia Amazonense de Letras,
rua Ramos Ferreira, 1009 - Centro Histórico.

E se vendesse toucas para bebês?


Pedro Lucas Lindoso


Quando Alfredo foi apresentado aos pais de Leonor, sua mãe achou-o “bonzinho”. Já o pai vaticinou que o pior adjetivo para um homem é ser “bonzinho’”. Não seria um bom marido. Apaixonada, Leonor casou-se com Alfredo. O rapaz demonstrou realmente ser “bonzinho”. E só.
Nunca deu sorte nos seus negócios e empregos. Houve um tempo em que as linhas telefônicas no Brasil tinham valor. Em algumas cidades eram comercializadas por quase mil dólares. Alfredo investiu toda a sua herança paterna adquirindo linhas telefônicas.
Em um ano, com as privatizações e novas telefonias no mercado, as linhas era disponibilizadas sem custo para o consumidor.  Alfredo vivia dos alugueres dessas linhas. Foi o primeiro fiasco de vários.
Leonor então começou a fazer doces e salgados para sobreviver. Uma placa colocada em frente da casa, diligentemente por Alfredo, se lia: “Aceitam-se encomendas de doces e salgados. Faz-se com esmero e higiene”.
Alfredo então foi ser gerente de uma locadora de vídeos. Logo veio a “blockbuster” e as locadoras da cidade fecharam as portas. O dono da locadora aproveitou para dar um golpe na praça. Fugiu para Miami e sequer pagou os direitos básicos dos empregados. Incluindo a rescisão de Alfredo.
Após fazer um curso de “emissão de passagens aéreas” no SENAC, empregou-se numa agência de viagens. Com o advento de vendas de passagens pela internet, mais uma vez, Alfredo foi dispensado. E Leonor continua aceitando encomendas, coitada!
Desde então Alfredo dirige um taxi. Depois de alguns anos conseguiu livra-se do aluguel da placa. Está com um carro relativamente novo. Todavia as corridas estão cada dia mais raras com a chegada do UBER.
Uma comadre e amiga de Leonor vive sugerindo as coisas mais mirabolantes e inusitadas para que Alfredo finalmente possa ser bem-sucedido. A última dela:
– E se vendesse toucas para bebês?
Leonor logo respondeu:
– As crianças começariam a nascer sem cabeça!
Leonor continua com as encomendas, “com esmero e higiene”.


segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Cultura, tradição e escritura 4/4


Tenório Telles


A palavra como reconciliação com o mundo

O poeta francês Francis Ponge (1997, p. 67), ao refletir sobre a capacidade do poeta de fundar o mundo por meio da palavra, pondera que esse poder “lhe vem... de uma possibilidade para o funcionamento do mundo e de uma violenta necessidade de integrar-se a ele, depois... de uma particular aptidão para manejar, ele próprio, uma determinada matéria”. Essa matéria não é outra senão a linguagem: capacidade instauradora de nossa humanidade e ponte que nos liga à realidade e às coisas. Ponte que nos liga ao ontem, ao hoje e ao futuro. Somos filhos do verbo – nascidos das entranhas do silêncio originário e do irrevelado que move o vento, as águas, os ciclos da vida – o cosmos, como desvelou Dante (1976, p. 63):
A fantasia agora está calada;
mas já renovo as forças, que a movê-las
vai a roda a girar sempre ordenada,
do Amor que move o sol e move estrelas.

Evocar a existência e transfigurá-la pela força do verbo é um dos atributos significativos dos que se dedicam à faina de encantar as palavras, revesti-las de plumas e asas – que é também um ato de desvestir a realidade e revelar-lhe sua impalpável carnadura, seus mistérios, sua ossatura. Só a linguagem permite esse mergulho no ser do mundo e nas águas do tempo em que somos. Ponge (1997, p. 69) considera que o poeta deve reatualizar permanentemente seu pacto com a vida para não se perder:
Tanto mais que, em sua atividade de dominação do mundo, ele corre o risco de se alienar, ele precisa, a cada instante, aí está a função do artista, graças às obras de sua preguiça, se reconciliar com o mundo.

A consciência do tempo, a compreensão de nossa presença no mundo e o sentido de nossa condição como seres históricos e criativos são os fundamentos capazes de nos impulsionar para uma outra possibilidade de vida – fundada no esclarecimento, na tolerância e no cultivo do belo. Isso só será possível, como nos alerta Eliot, quando compreendermos que somos parte de uma “totalidade”: quando entendermos que estamos/somos no ontem, no hoje e no amanhã – inapreensível prefiguração dessa convergência de tempos. O poeta evocou nossa trágica condição (não como algo irremediável), mas como devir – suspenso e indefinido:
Dayadhvam: ouvi a chave
Girar na porta uma vez e apenas uma vez
Na chave pensamos, cada qual em sua prisão
E quando nela pensamos, prisioneiros nos sabemos
Somente ao cair da noite é que etéreos rumores
Por instantes revivem um alquebrado Coriolano
(...)
Sentei-me junto às margens a pescar
Deixando atrás de mim a árida planície
Terei ao menos minhas terras posto em ordem?
(ELIOT, 1981, p. 105)

Teremos coragem de nos assenhorarmos da chave? De abrir a porta? De nos fazermos viajantes dessas planícies agrestes, desses desertos que não cessam de ultrapassar suas fronteiras? Teremos coragem de contemplar o firmamento e nos deixarmos, como homéricos navegantes, guiar pelos caminhos das estrelas? Na contracorrente dos tempos, acendo minha fogueira e desfio a tapeçaria da memória: “Com fragmentos tais foi que escorei minhas ruínas” (ELIOT, 1981, p. 106).

REFERÊNCIAS

AGAMBEN, GIORGIO. O que é o contemporâneo? e outros ensaios. Trad. Vinícius Nicastro Honesko. Chapecó, SC: Argos, 2009.
ARISTÓTELES. Poética. 4 ed. Trad. Ana Maria Valente. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2011.
ASSIS, Machado de. Obra Completa. Vol.III. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1979, p. 798-801.
BLANCHOT, Maurice. O livro por vir. 2. ed. Trad. Leyla Perrone-Moisés. São Paulo: Martins Fontes, 2013.
DANTE. 6 cantos do paraíso. Trad. Haroldo de Campos. Rio de Janeiro: Fontana; São Paulo: Istituto Italiano di Cultura, 1976.
ECO, Umberto. A definição da arte. Trad. Eliana Aguiar. São Paulo: Record, 2016.
ELIOT, T. S. Ensaios. Trad. Ivan Junqueira. São Paulo: Art Editora, 1989.
______. Poesia. Trad. Ivan Junqueira. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1981.
MELO NETO, João Cabral de. Melhores poemas. 10. ed. Sel. Antonio Carlos Secchin. São Paulo: Global Editora, 2010.
PERRONE-MOISÉS, Leyla. Mutações da literatura no século XXI. São Paulo: Companhia das Letras, 2016.
______. Flores da escrivaninha. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.
PLATÃO. A República. 2. ed. Trad. Ana Lia Amaral de Almeida Prado. São Paulo: Martins Fontes, 2014.
PONGE, Francis. Métodos. Trad. Leda Tenório da Motta. Rio de Janeiro: Imago, 1997.
RILKE, Rainer Maria. A melodia das coisas. 2. ed. Trad. Claudia Cavalcanti. São Paulo: Estação Liberdade, 2011.

domingo, 5 de novembro de 2017

sábado, 4 de novembro de 2017

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

minha toada


Zemaria Pinto


amarrei minha toada
em quatro quadras ligeiras
redondilhas temperadas
pelo aço das palavras

palavras que se entrelaçam
dezesseis versos matreiros
como pássaros que passam
em rimas ocasionais

quatro trovas na fieira
são quatro moças dengosas
quatro potros na carreira
quatro facas de cortar

versos, cantos, cantoria
pelas ruas da cidade
vou espalhar poesia
para o meu amor passar

VI Estilhaços Literários



Ética médica de Hipócrates



João Bosco Botelho

O “Juramento de Hipócrates" marcou os pilares éticos da relação médico-paciente, e iniciou o processo de adaptação do código de ética do médico às mudanças futuras, sociais, políticas e tecnológicas.
O Juramento reza: “Eu juro por Apolo, médico, e Esculápio, Hígia e Panaceia e todos os deuses e deusas, que, de acordo com minha habilidade e julgamento, cumprirei este juramento e estes compromissos: respeitar quem me ensinou esta arte como se fora meu pai... Não darei venenos mortais a ninguém. Mesmo que seja instado, nem darei a ninguém tal conselho e, do mesmo modo, não darei às mulheres pessário para provocar aborto. Viverei e praticarei a minha arte com pureza e santidade. Não operarei os que sofrem de pedra, mas deixarei que isto seja feito por homens que são práticos nesses ofícios.”
O caráter sagrado envolvendo o Juramento e as alusões associativas da Medicina com uma espécie de doutrina de iniciados podem estar relacionados aos ritos pitagóricos e órficos.
O Juramento de Hipócrates contém algumas afirmações que podem ser analisadas:
1. “Seguirei aqueles que de acordo com a minha habilidade e julgamento considerar benéficos aos meus doentes e me absterei de tudo que for nocivo e deletério. Não darei venenos mortais a ninguém”:
É difícil assegurar se tratar da exclusiva crítica à eutanásia ou, por outro lado, dos cuidados para evitar medicamentos utilizados na época, que poderiam causar a morte, como o heléboro (erva Medicinal do gênero Veratrum da família das liláceas, que contém o alcaloide veratina, com propriedades analgésicas);
2. “Mesmo que seja instado, nem darei a ninguém tal conselho e, do mesmo modo, não darei às mulheres pessário para provocar aborto“.
A proibição do aborto é um dos aspectos mais curiosos do “Juramento”. Nenhum médico hipocrático o condenou, salvo pelas complicações que podiam ocorrer, em especial, a morte da gestante. Entretanto, existe documentação que sugere ser o aborto religiosamente impuro;
3. “Viverei e praticarei a minha arte com pureza e santidade. Não operarei os que sofrem de pedra, mas deixarei para ser feito por homens que são práticos nesse ofício”.
Este parágrafo é um dos mais polêmicos. Apesar da litíase da bexiga (do grego lithes= pedra) ter sido bem conhecida, naquela época, eram grandes os riscos da realização da cirurgia para retirada, quase sempre provocando a morte do doente. A frase “por homens que são práticos nesse ofício” insinua o médico hipocrático preocupado com a má reputação de ter provocado a morte de um paciente.
Esses trechos podem fortalecer a ideia de que a maior de todas as preocupações éticas do médico grego era preservar a vida. O médico não poderia ser o agente da morte advinda na terapêutica! Essa é a essência do Juramento!

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

terça-feira, 31 de outubro de 2017

São João Batista


Pedro Lucas Lindoso


Esta semana se comemora o dia de finados. Aqui em Manaus, o “chique” é ser enterrado no Cemitério São João Batista. Dizem que o do Tarumã é longe. Há outras cidades com cemitérios em honra a São João. Pelo que sei, no Rio de Janeiro, Fortaleza, Aracaju e até em Juazeiro do Norte-CE são cidades em que São João é reverenciado em cemitérios.
O Cemitério São João Batista no Rio de Janeiro conta com um excelente acervo de arte tumular, estátuas e outras obras de artistas renomados. O nosso aqui em Manaus também têm esculturas de grande valor artístico e arquitetônico. Todavia, há jazigos em que o bom senso foi esquecido ou morreu junto com o homenageado.
João Batista é um dos santos mais retratados e reverenciados na arte cristã. Ele se alimentava de gafanhotos e mel silvestre. Apresenta-se em veste de pele de camelo e um cinto. Está quase sempre junto a um cordeiro, imagem que evoca Jesus, o Cordeiro de Deus.
João, cujo nome significa “Deus é misericórdia”, é o último profeta do Antigo Testamento. A Igreja o homenageia tanto no dia do seu martírio, em 29 de agosto, quanto no do nascimento, em 24 de junho. É também patrono dos maçons.
Quando levo pessoas para conhecer a Catedral de Brasília, marco arquitetônico magnífico de Niemeyer, sempre me perguntam: Por que a imagem de João está só, à direita de quem entra no templo? Do outro lado ficam os outros três evangelistas: Mateus, Marcos e Lucas. Estes três evangelhos são chamados de sinóticos, pois tem muitas semelhanças entre si e podem ser comparados em seus textos. Já o de João foi escrito para a comunidade dos gentios, na Ásia Menor. É o único que não é sinótico.
Aqui em Manaus a pergunta que não quer calar entre os passantes pelo pórtico do Cemitério São João Batista é: o que significa mesmo LABORUM META?
A explicação dada por meu pai era que ali se terminavam os trabalhos. Ele então meditava sobre quão efêmera, passageira, transitória é nossa existência. E tudo termina. É o fim dos trabalhos.
O trabalho só não termina para Carlinhos Zona Leste. Todo ano ele fatura uma grana extra no dia de finados. Vende água, cerveja e refrigerante nos arredores do São João Batista. E explica:
– Vela e flores são importantes para os mortos. Os vivos precisam de algo para aliviar a sede. Faz muito calor nessa época aqui em Manaus.


segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Cultura, tradição e escritura 3/4


Tenório Telles


Machado e “a crítica pensadora”

No dia 8 de outubro de 1865, Machado de Assis publicou, no Diário do Rio de Janeiro, uma crônica intitulada “O ideal do crítico”. O texto, considerando seu caráter argumentativo reflexivo, aproxima-se do ensaio, embora conserve o tom de diálogo peculiar característico do cronista. Machado antecipa muitas questões que serão objetos de debate no século seguinte. Ao versar sobre a crítica, intima os estudiosos a exercitarem
a crítica fecunda, e não a estéril, que nos aborrece e nos mata(...) a crítica pensadora, sincera, perseverante, elevada(...) condenai o ódio, a camaradagem e a indiferença – essas três chagas da crítica de hoje –, ponde em lugar deles, a sinceridade, a solicitude e a justiça – só assim teremos uma grande literatura (ASSIS, 1979, p. 798)

A tradição e o domínio dos procedimentos criativos não são suficientes para gerar a obra literária – ou as obras de arte em geral. Um elemento particular é imperativo na faina criativa – o talento: entendido como atributo de uma sensibilidade artística singular (como diz Eliot (1989, p. 39): “o fragmento de platina”, prefigurado na mente do poeta): “quanto mais perfeito for o artista, mais inteiramente estará nele o homem que sofre e a mente que cria; e com maior perfeição saberá a mente transfigurar as paixões que lhe servem de matéria-prima”.
Talento, conhecimento e emoções mesclam-se no processo de gestação da obra de arte. Essa não é uma experiência destituída de tensão e de um forte componente demiúrgico. O texto escrito (poesia ou prosa) é gerado nas entranhas de seu criador: nutre-se de seu sangue, de seus sonhos e razão, de suas emoções e angústias mais profundas. Por isso, o ato criativo é uma experiência de morte e de vida, em que o artista sacrifica tempo e muito de si mesmo para que a criação nasça e seja compartilhada socialmente. A escritura é um raio que brota dos abismos do ser, pois, como afirma Rainer Maria Rilke (2011, p. 134): “A cada obra de arte vem ao mundo algo novo, uma coisa a mais”. Esse novo a que se refere é também continuidade da linhagem a que se vincula todo agente da criação – enriquecendo, com seus esforços e realizações criativas, o patrimônio artístico da humanidade.
A inquietude e o desejo de dizer de si e do mundo, que movem o artista, são forças geradoras da criação. Desassossego e falta expressam a humana condição num tempo e mundo estiolados, esvaziados de seus fundamentos: época precária, opaca e inominável – fênix destituída de sua mágica recriadora. Encantados pela esfinge do paraíso consumista, os seres humanos perdem-se entre as sombras e a paralisia de uma vida inautêntica. A arte é o antídoto para esse viver letárgico e arruinado. Resta-nos a Palavra como possibilidade de testemunho desse estar-no-mundo indiferente, mas também como libertação – ou como disse Fernando Pessoa (apud PERRONE-MOISÉS, 1990, p. 105): “uma confissão de que a vida não basta”. Não basta se não for vivida com encanto, com consciência e como ato libertário. A beleza é o sangue capaz de reavivar a existência e restabelecer os fundamentos primordiais da civilização.


domingo, 29 de outubro de 2017

sábado, 28 de outubro de 2017

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

A Canção de Amor de J. Sebastião


Zemaria Pinto


Sigamos então, tu e eu,
enquanto Manaus se estende sob o céu
como um paciente anestesiado sobre a mesa.

Caminhemos pelas mesmas ruas,
quase desertas a estas horas,
sob uma bruma eliotiana,
contando as fachadas dos hotéis de conveniência,
ouvindo ao longe a doce música das sirenes.

Ah, Manaus, Manaus,
o mais vil de teus poetas
vomita sua sintaxe indefinida
arrastando-se no lodo da Cachoeira
em busca de alguma felicidade provisória
ou uma dose violenta de qualquer coisa
mergulhando a alma nessa tenra madrugada de outubro.

Abraço o poeta e o beijo que deposito em sua boca
é amargo e fedido.
Peço uma tangerina e mais outra
e o cheiro que toma o ar me embriaga
mais que toda a cerveja e toda a urina do banheiro fétido.

O poeta sussurra alguma coisa sobre
as moças assassinadas / da praia da Ponta Negra
e fala de espectros e histórias de amor
e eu mal consigo perceber o movimento de sua língua de chumbo.
Tomo suas mãos nas minhas e ele adormece
murmurando preces pelas moças assassinadas.

Ah, Manaus, Manaus,
quanta poesia desperdiçada
nas flores que o rio insiste em devolver à areia
num invólucro de espuma.
Onde estão tuas crianças, cidade?
Onde estão tuas mulheres, teus velhos?
E tuas úmidas meninas túmidas?
Em que longínqua guerra fratricida eles sucumbiram?

Ah, maninha,
não me curvo às urgências do teu sexo
ou ao discurso mudo dos teus bêbados.
Seria a poesia uma doença tropical?
A bruma cai em flocos e tem gosto de açaí.
Precisamos beber algo quente
que nos anuncie a manhã,
como um galo ou uma fábrica.

Dá-me tua mão.
Ainda há tempo.