Amigos do Fingidor

quinta-feira, 19 de abril de 2018

Dolorosa busca da consciência



João Bosco Botelho


A humanidade, caminhando nos espaços sagrados, e profanos tem procurado a natureza da consciência não mensurada, até o momento, imaginada.
No espaço sagrado, consagrando coisas e pessoas, a divindade passou a ser a força motriz de todos os sentimentos. Em consequência, a vontade divina tem sido a dominadora das emoções, restando à humanidade cumprir, fielmente, o determinismo inexorável vindo do invisível, obedecendo às ordens dos representantes na terra do poder transcendente e agradecer, com oferendas e ritos de louvor, a vida vivida.
No espaço profano, buscando a ressonância das ideias na realidade visível e mensurável, homens e mulheres iniciaram a busca para conhecer o próprio corpo escondido atrás da pele e apreender porque chora, ri, ama e odeia.
O esforço para desvendar a consciência tem se mostrado doloroso porque o conjunto teórico está amparado no conflito de competência entre os dois espaços para desfazer as dúvidas e seduzir pelo convencimento.
De um lado, no sagrado, a persuasão tem sido a sagração do corpo e de coisas, transformando-as no centro, para facilitar a comunicação com a divindade. Do outro, no profano, ligado no naturalmente observável e mensurável, tentando legitimar o imaginado.
É história de longa duração!
Os registros em escrita cuneiforme apontam que o fígado era o mais importante, o centro do corpo. É impossível saber a razão exata dessa escolha e não outro órgão como o pulmão e o coração. É possível teorizar em torno da preferência a partir da alta prevalência de doenças hepáticas e febres, provocando icterícias mortais nos habitantes das margens alagadiças dos rios Tigre e Eufrates. Sob esse pressuposto, se alguém pudesse interpretar as variações na forma, na anatomia, do fígado, seria capaz de prever a saúde futura e, por conseguinte, os malefícios e benefícios na vida social. Desse nodo, a adivinhação por meio da hepatoscopia – a interpretação das formas do fígado no carneiro –, para interpretar a vontade da divindade, era prática corriqueira, ao menos entre os que podiam comprar o animal e pagar o adivinho.
O judaísmo, resistindo desde os primeiros tempos à tradição politeísta, deslocou o centro do corpo para o coração, talvez motivado pelas mudanças sentidas no ritmo cardíaco durante as emoções. No Antigo Testamento (AT) existem citações metafóricas do coração como sede da vida física (Ge 18, 5; At 14, 17), da tristeza (Dt 15, 10), da alegria (Dt 28, 47) e do medo (Dt 20, 3).
Confrontando o monoteísmo judaico, os médicos gregos, na Escola de Kós, no século 4 a.C., de modo genial, nos aforismos hipocráticos, aproximaram a consciência do cérebro: “Algumas pessoas dizem que o coração é o órgão com o qual pensamos e que ele sente dor e ansiedade. Porém não é bem assim: os homens precisam saber que é do cérebro e somente do cérebro que se originam os nossos prazeres, alegrias, risos e lágrimas. Por meio dele, fazemos quase tudo: pensamos, vemos, ouvimos e distinguimos o belo do feio, o bem do mal, o agradável do desagradável... O cérebro é o mensageiro da consciência... O cérebro é o intérprete da consciência”.
O cristianismo conservou a interpretação do Antigo Testamento: Deus comunicando-se com os homens por meio do coração (Mc 2, 6 8; Lc 3, 15; 2Co 2, 4). 
O islamismo manteve o coração, entretanto, e foi mais longe: talvez sob influência grega, associou o coração como representante da intuição (“al kashf”, revelação, ato de levantar o véu) e o ponto de identificação (wajd) com o Ser (al wujud). 
O maior desvendar profano do corpo chegou, nos séculos 16 e 17, com os estudos da anatomia e resgatou a maravilhosa percepção dos médicos hipocráticos da Escola de Kós, recolocando a consciência no cérebro. 
A suprema beleza da “Criação do Homem”, pintada por Michelangelo (1475 1564), no teto da Capela Sistina – o homem recebendo de Deus a inteligência, claramente o sistema nervoso central – é a sublime manifestação na arte do deslocamento do coração, como o centro do corpo, para o cérebro, aproximando os espaços sagrados e profanos.

quarta-feira, 18 de abril de 2018

Fantasy Art - Galeria


Nude on blue paper.
Felipe Echevarria.

terça-feira, 17 de abril de 2018

Verbo enticar – transitivo indireto



Pedro Lucas Lindoso


Logo após o famoso imbróglio entre os ministros Gilmar Mendes e Luís Roberto Barroso, ocorrido no plenário do Supremo Tribunal Federal, tia Idalina me liga do Rio de Janeiro.
– Coitada da Carminha! E eu pergunto:
– Mas quem é Carminha, titia?
– A Carmem Lúcia. Conheci Carminha quando participei de um seminário na Sorbonne. Um evento maravilhoso, em Paris. Ficamos amigas. Ela agora tem que ficar administrando entreveros entre esses marmanjos mal-educados. Um horror! O energúmeno do Gilmar Mendes, primeiro enticou com a Carminha. Depois, enticou com esse moço aqui do Rio de Janeiro, o Dr. Luiz Fux. Por último, foi enticar com o ministro Barroso. Levou um merecido carão.
Fazia anos que eu não ouvia o verbo enticar. Como se sabe, significa mexer com alguém, implicar, importunar, aborrecer. E também a palavra carão, no sentido de repreensão, reprimenda. Só mesmo tia Idalina. Palavras que mexem com minha memória afetiva. Minha mãe me dava “carão” se eu ficasse enticando com minhas irmãs menores.
– Não sabia que a senhora era amiga da ministra Carmem Lúcia, disse-lhe.
– Há muito tempo não converso com ela. É uma simpatia. Adoro a Carminha. É de Minas Gerais. Mais mineira que pão de queijo e broa de milho. Esses ministros brigões não conhecem os mineiros. Mineiro toma banana de macaco. Deixa o macaco contente e agradecido. E ainda devendo favor!
Essa definição de mineiro é ótima, disse-lhe. E nós amazonenses gostamos muito de banana. Frita, assada, cozida. Mingau de banana então é uma delícia!
– O amazonense briga com o macaco pelas bananas. Depois acusa o macaco de ser sulista e vir para o Amazonas levar vantagens e tomar as bananas dos amazonenses. Uma coisa!
Mas essa história dos ministros do STF ficarem enticando um com o outro é muito sério e constrangedor para os brasileiros.
– Pois é. O outro já está enticando com a Carmem Lúcia.
– Que outro, tia Idalina?
– Outro é o outro. Sei lá quem é o outro. E desligou.
Tia Idalina, amazonense moradora de Copacabana, sofre da mesma mineirice da ministra. É bom mesmo não enticar com elas.

segunda-feira, 16 de abril de 2018

Poe.Mao.City




Manaus, a cidade de Sérgio Cardoso, o artista que inaugura uma nova mostra de seu talento. Manaus, poema e terror; por isso se vê, no título, o (Edgar Allan) Poe, o Mao, e o Poema que surge da união das duas palavras. Ou seja, a beleza surgindo do esterco da vida.

Sobre essa Manaus antitética e multifacetada, Sérgio expõe sua visão em telas e fotografias sobre o grande e o pequeno, o épico e o irrisório. Tudo com o sal de sua consagrada arte. Ver sua exposição não é apenas olhar, mas ter a ousadia de um explorador de cavernas, capaz de penetrar em significados ocultos.

E também perceber, na placidez ou no desespero dos rostos e figuras expostas, a mesma inquietude, a mesma interrogação sobre o estar-no-mundo. Por tudo isso – e mais o indizível –, vale a pena apreciar essa nova mostra do talento que se chama Sérgio Cardoso.

(Marcos Frederico Krüger)

domingo, 15 de abril de 2018

Manaus, amor e memória CCCLXIV


Rua Municipal, atual 7 de Setembro.

sábado, 14 de abril de 2018

quinta-feira, 12 de abril de 2018

Tartufo-me – considerações patafísicas



Jorge Bandeira


Há montanhas de problemas que nos encerram por todas as partes: infeliz de quem pensou escapar aos problemas, infeliz de quem acreditou poder dispensar-se de pensar.
(Antonin Artaud – A Evidência da Luz que Cega)

Tartufo-me. Um Teatro Produções. Assustador. Necessariamente, assustador. O crítico não esboçou uma única risada. Os tempos do Pastor Tartufo não são os da comédia, são tempos de assassinato e de prisões, prisões físicas e, as piores, as prisões do espírito. A direção de Tércio Silva é um lampejo de alento cênico a este tempo de extrema crueldade e ignorância, de truculências e idiotices, sandices e discursos odiosos. O padeiro de Tartufo-me modela uma massa disforme, alegoria de seu cérebro carcomido pelo fermento mortal da estupidez humana. O crítico patafísico ficou extasiado de tanta bem-vinda provocação. O crítico patafísico também observou com pesar alguns tartufos disfarçados na plateia do Teatro Amazonas, numa excepcional terça-feira, 10/04/2018, com bilheteria satisfatória e que, pelo honesto e profissional trabalho de divulgação da Um Teatro, encheu além da metade das cadeiras da plateia. Para o teatro local, não caça-níquel e sem cadastrões globais, é um feito memorável.
Tartufo-me é uma aula de cidadania, e de Teatro. Dimas Mendonça é de uma incrível versatilidade cênica: seu corpo atua por inteiro. Ele também é o adaptador desse texto monologal, oriundo do brilhantismo de Molière. O monólogo é sarcástico e vibrante, e Mendonça dispensa maiores apresentações: seu trabalho de ator e performer em Manaus é respeitado por todos, ele é um gigante no palco, sua voz é de uma limpidez e elegância que nos delicia ouvi-la empreender tons e guturaçoes à personagem vil do Pastor Tartufo. Mendonça facilmente e com maestria nos transporta para as transubstanciações do corpo e alma fáustica desse abominável personagem.
O perigo talvez seja o excesso de empatia que a personagem tirana, ditatorial e autoritária venha a exercer no espectador menos preparado, mas creio firmemente que as amarras de condução cênicas do diretor impedem a empatia de se aproximar. A música do multinstrumentista Jeferson Mariano costura toda a trama, com muita dinâmica e desenvoltura, casando-se perfeitamente às cenas, num equilíbrio eficaz para este Teatro sutil, grotesco e extravagante, no sentido paradoxal que isso venha a ter. O figurino e a cenografia, iluminação e visagismo da RS são economicamente teatrais, o que reforça o brio interpretativo de Dimas Mendonça. O monólogo é de um realismo inquietante, tudo que ali no palco de Tartufo-me é uma aproximação, pois creia, leitor@, o real é mais pavoroso ainda.
Tartufo-me aponta um caminho para escaparmos destas anomalias do modelo torpe de salvação calvinista cristã. Escancara as falsidades que imperam nos dias atuais, em todos os segmentos desta desumanidade. A única coisa que me causa horror deste espetáculo é que seu final crie vida e se concretize na vida real, que a sombra do mal vença e adentremos verdadeiramente naquele inferno.
Antonin Artaud não está à toa na epígrafe que abre este artigo. O crítico patafísico, por fim, deseja merda a Tartufo-me, que não ocorram perseguições e violências de quaisquer natureza a sua equipe e a Um Teatro... Os tempos não estão para brincadeiras e aleivosias inquietantes a esta milenar arte do Teatro.
[Assinado psicograficamente por Dougaldst, nosso primeiro crítico do Teatro Amazonense, segundo tese de mestrado de Simone Villanova A História dos Pequemos Teatros de Manaus (1859-1900).]

Nota do editor: Tartufo-me inaugurou temporada nesta terça-feira, no Teatro Amazonas. Infelizmente, não se sabe quando e nem onde serão as próximas apresentações. Manaus...

Pajé ou xamã



João Bosco Botelho


E interessante o rumo europeu que tomou a qualificação dos pajés na literatura especializada. Recentemente, foi introduzida a palavra xamã como sinônimo de pajé. Na realidade, o termo xamã é derivado do francês, “chamam”; do alemão, “schamane” e do russo, “saman”. Por outro lado, o xamanismo é a religião de certos povos do norte da Ásia e são baseados na primitiva crença de que os espíritos maus e bons podem ser dirigidos pelos xamãs para promover a bondade ou a maldade.
Júlio César Melatti (“Índios no Brasil”, 5ª ed.), adotou a religião asiática para diferenciar os pajés brasileiros: “Existe uma certa categoria de médicos-feiticeiros que recebe o nome especial de xamãs. O que caracteriza o xamã é poder fazer de um estado de êxtase, durante o qual sua alma se retira para longe do corpo, percorrendo lugares distantes, ou durante o qual nele se encarna um espírito estranho”.
A mesma compreensão é encontrada em Berta Ribeiro (“O Índio na cultura brasileira”): “Na pajelança – fenômeno talvez concentrado na Amazônia – é que se faz sentir com mais força a influência indígena. O pajé não é apenas o benzedor. É mais que isso. Adivinha os pensamentos, os acontecimentos, previne-os e os combate. Os processos de cura do pajé aproximam-se do xamanismo tupi: a par da introdução da cachaça, registra-se o uso do cigarro, do maracá, de rezas”.
Do mesmo modo, Viveiro de Castro (“Alguns aspectos do pensamento Yawalapiti, Alto Xingu”): “Duas figuras da sociedade humana mantêm uma relação especial com os apapalutapa: os xamãs e os feiticeiros. O espírito – qualquer um – é por definição um xamã”.
É possível argumentar existir algum equívoco entre os significantes simbólicos do pajé e do xamã, que pode ser consequência da introdução por antropólogos e etnólogos europeus da palavra xamã nos seus trabalhos sobre os índios das Américas. Contrariamente, os cronistas e viajantes dos séculos 16 e 17 só utilizaram a palavra pajé.
Egon Schaden (“Las religiones indigenas de Amerca del Sur”) também igualou o xamanismo à pajelança: “La literatura etonologica referente a América del Sur designa frequentemente com el nombre de chamanismo el conjunto de practicas y funciones inherentes a esta profesion. El chamam indio puede a menudo ser tambien em hechicero, o ser considerado como tal, pero seria erronso aplicarle esta denominacion de modo indiscriminado. El ejercicio de la medicina figura casi siempre entre sus pincipales atribuciones, y este hecho se explica por el origem sobrenatural de la mayoria de las enfermidades”.
Talvez o ponto comum entre os autores que identificaram igualdades entre o pajé e o xamã tenha sido o etnólogo Herbert Baldus por meio das publicações: “Ensaios de Etnologia Brasileira”, “O Xamanismo” e “Sugestões para pesquisas etnográficas e a bibliografia crítica da etnologia brasileira”.
As descrições publicadas pelos cronistas dos atributos e das funções dos pajés, nos séculos 16 e 17, são diferentes das dos xamãs. Os pajés não eram só curadores que se “comunicavam com os espíritos”, eles iam muito além: interferiam no conjunto social, previsão do tempo, processos migratórios e melhor hora de plantar e colher, além de opinar sobre a guerra.
D´Abbeville foi preciso: “Poucos entre eles desconhecem a maioria dos astros e estrelas de seu hemisfério; chamam-nos por seus nomes próprios, inventados pelos seus antepassados... Temos entre nós a poussinière, que muitos conhecem e que denominam seichu. Começa a ser vista, em seu hemisfério, em meados de janeiro, e mal a enxergam afirmam que as chuvas vão chegar, como chegam efetivamente pouco depois.”
É evidente que não se trata de adivinhação. Representava o resultado do conhecimento historicamente acumulado do pajé, muito além da cura de doenças. O mesmo pode ser suposto em relação à guerra.
Esse extraordinário conjunto de saberes sob a guarda do pajé contribuiu não só para o imenso destaque tribal, mas, principalmente, pela expressa determinação do elemento colonizador para destruí-lo moral e fisicamente como condição para atenuar a resistência.
Sob esses argumentos é possível trazer à discussão o equívoco de entender o xamã como sinônimo de pajé.

quarta-feira, 11 de abril de 2018

terça-feira, 10 de abril de 2018

Lua. Oh lua!



Pedro Lucas Lindoso


O que inspira poetas e prosadores?
Não há dúvidas. As mulheres são as nossas maiores inspiradoras. Desde sempre. Principalmente a mulher amada. Da mitologia grega vieram as musas. A musa é a personificação feminina da inspiração. As musas estimulam os poetas, escritores e artistas em geral. Eram filhas de Apolo, deus da beleza, da harmonia, da elegância.
Depois das musas, a lua é possivelmente o objeto de inspiração mais utilizado por poetas e prosadores. Há sempre motivos para se falar da lua. Sábado de aleluia. Minha netinha Maria Luísa olha pela janela e exclama:
– Lua cheia, vovô! Incrível! Aprendeu a palavra incrível e tem usado com frequência. Não há nada de incrível com a lua cheia da Semana Santa. Sempre foi e sempre será cheia.
 A Semana Santa depende da lua cheia. Porque é uma data móvel. Esta mobilidade afeta as festas relacionadas ao Carnaval, à Pascoa e também o número de semanas do Tempo Comum, da Liturgia diária dos católicos.
Na época da Guerra Fria, russos e americanos tudo disputavam. Da corrida espacial até quem seria o primeiro a conquistar a lua. Queriam se tornar “dono” do satélite. Quanta bobagem, quanta ganância.
Fomos, nós brasileiros, que demos a melhor resposta a essa tolice. Ou melhor, o grande compositor Braguinha, que fez a bela canção, imortalizada na voz de Ângela Maria:
“Todos eles estão errados. A lua é dos namorados”.
“Lua que no céu flutua lua que nos dá luar...”.
Outro conceito poético e idiomático que envolve a lua e os ingleses é a “once in a blue moon”.
A “blue moon” ocorre quando há duas luas cheias no mesmo mês. Geralmente, em meses de trinta e um dias como julho ou agosto. É um fenômeno bastante raro. Deu origem à expressão “once in a blue moon” que significa “muito raramente”.
Por falar em lua e Inglaterra, não nos esqueçamos que dia 23 de abril é dia de São Jorge. O rei inglês Ricardo I, da época das Cruzadas, constituiu São Jorge padroeiro. Como se sabe, as cruzadas eram expedições que tentavam reconquistar a Terra Santa. Naquela época se criou na Inglaterra a Ordem dos Cavaleiros de São Jorge. Os ingleses acabaram por adotar São Jorge como padroeiro do país, imitando os gregos, que também trazem a cruz de São Jorge na sua bandeira.
Todavia, a ligação de São Jorge com a lua é tradição brasileira. Está relacionada com nossa herança africana. E não ao santo europeu. São Jorge é Oxóssi. Reza a lenda que as manchas apresentadas pela lua representam o santo, seu cavalo e a sua espada.
São Jorge está lá na lua pronto para defender aqueles que buscam sua ajuda. Lua. Oh lua!

domingo, 8 de abril de 2018

Manaus, amor e memória CCCLXIII


Baía do rio Negro, vista de São Raimundo.

sábado, 7 de abril de 2018

Fantasy Art - Galeria


Darkest Beauty.
Frans Mensink.

quinta-feira, 5 de abril de 2018

Zona de Guerrilha Franca



Zemaria Pinto


27 – Temos que ver o lado positivo da votação de quarta-feira: o horrível, o malatrasado, o psicopata Gilmar Mendes, que combina o pensamento com a gravata, perdeu.

28 – Os summi magistratus usam o latim como os publiciotários usam o inglês. Tudo cortinae fumus para encobrir os doutos interesses subjetivos – e os objetivos também. 

29 – Com as interdições do João Gilberto e do Lula, o país regrediu 60 anos. Luans Santanas e todas as outras perversas mediocridades à parte, a trilha sonora do país – de bolsonaros e generais, almirantes e brigadeiros de pijama – voltou ao depressivo samba-canção: meu mundo caiu...


Pajé, caraíba e xamã



João Bosco Botelho


É interessante a abordagem de Metraux ao diferenciar as competências dos pajés para curar a doença ou fazer a previsão do tempo ou da colheita, gerando diversas identificações: “Uns tantos dentre eles, todavia, adquiriram certa reputação, que os colocava acima da confraria e lhes dava uma situação superior, recebendo nome de pajé-ouassou ou caraíba, palavra que os antigos autores traduzem por santidade ou homem sagrado”.
Achamos importante levantar algumas indagações lembrando que, entre os médicos, existe uma nítida estratificação pela competência demonstrada pela resolução de doenças pouco comuns, que podem afetar a segurança pessoal ou coletiva. Todos são médicos, porém para caracterizar essa separação, os doentes usam palavras complementares: competente, preparado, estudioso e muitas outras.
Sob esse enfoque, o “Dicionário Histórico”, de Antônio Geraldo da Cunha, ajuda a reforçar o pressuposto ao descrever caraíba: “A cronologia das acepções foi estabelecida com base na documentação histórica adiante descrita. Com efeito, Anchieta informa que o termo indígena caraíba traduz-se por “coisa santa e sobrenatural”, esclarecendo ainda que os índios o adotaram para designar os portugueses. Cardim asseverava, por seu turno, que o termo era aplicado aos feiticeiros indígenas, dando ao vocabulário, todavia, uma conotação pejorativa, pois entre os indígenas, caraíba designava o guia espiritual, espécie de pajé que presidia os seus cultos religiosos, Frei Vicente do Salvador apresenta uma bem fundamentada explicação da origem dos significados assumidos pelo vocabulário caraíba, isto é, homem branco, cristão.
Em algumas situações, de certo modo como em algumas relações entre médicos e doentes, nos relatos dos cronistas, não é fácil separar o fantástico do real.
Lery participa da mesma ideia de que o pajé era diferente do caraíba: “Se acontece cair doente algum deles logo mostra a um amigo uma parte do corpo em que sente mal e esta é imediatamente chupada pelo companheiro ou por algum pajé, embusteiro de gênero diverso dos caraíbas a que me referi no capítulo em que tratei da religião e que corresponde aos nossos barbeiros e médicos. E tais pajés lhe fazem crer não somente que os curam mais ainda que lhes prolongam a vida”.
No capítulo citado, Lery descreve assim os caraíbas: “Os selvagens admitem certos falsos profetas chamados caraíbas que andam de aldeia em aldeia como os tiradores de ladainhas e fazem crer não somente que se comunicam com os espírito e assim dão força a quem lhes apraz, para vencer e suplantar os inimigos na guerra, mas ainda persuadem terem a virtude de fazer com que cresçam e engrossem as raízes e frutos da terra do Brasil”.
Por outro lado, nas notas do capítulo VII, no livro “Religião dos Tupinambás”, Estevão Pinto discorda dessa separação feita por Lery: “Lery quis fazer crer que o pajé não passava de uma criatura de gênero diverso do caraíba. Foi um erro desse calvinista. Todo caraíba era pajé, embora nem todo pajé fosse caraíba”.
Marcgrave, como Estevão Pinto, percebeu o mesmo sentido para as palavras pajé e caraíba: “E tem feiticeiro, os quais dificilmente usam, doutra maneira que médicos, e a estes são sujeitos pelo grande desejo de ver a saúde ser recuperada... Os demais feiticeiros chamam pajé, caraíba, porém é para eles o poder deles de concluir os milagres, razão pela qual os lusitanos, porque muitas coisas faziam, que excediam a inteligência deles, chamavam de caraíbas e assim também hoje na verdade e chamam todos os Europeus”.
Desse modo, essas contradições também podem confirmam algumas dificuldades para apreender os significantes simbólicos, no século 16, das muitas línguas dos índios.

quarta-feira, 4 de abril de 2018

Zona de Guerrilha Franca



Zemaria Pinto


21 – O STF pretender-se a única instância da justiça brasileira a poder mandar prender é de uma cretinice sem par na história da instituição.

22 – Confesso minha ignorância sobre como funcionam as instituições similares de países, digamos, civilizados; mas, me pergunto, como pode um juiz que foi designado por um presidente, com o apoio de boa parcela da classe política, julgar interesses contrários àqueles que lhes proporcionaram tão bela aposentadoria.

23 – E como podem 11 indivíduos – que são apenas pessoas normais, como eu, como você, que se dá ao trabalho de me ler, que precisam comer na hora certa, dormir um mínimo de horas por dia e até fornicar de vez em quando – como podem, eu me pergunto, esses 11 indivíduos, tomar para si a responsabilidade pelo cumprimento da justiça do país?

24 – Associar o julgamento do Habeas Corpus de um caso específico à inversão da jurisprudência é má fé. A defesa de Lula quer o HC porque entende que os julgamentos anteriores foram desonestos. É apenas isso que está em julgamento. Para ou continua e a vida segue em frente. Mas os doutos cretinos querem mudar as regras do jogo, visando unicamente beneficiar seus protetores.

25 – Aí, o que era comédia começa a virar palhaçada, com generais de pijamas despertando de seus letárgicos sonos, ameaçando com intervenção. Tem que combinar com o Trump, antes, ó generalhaço.

26 – Falar nisso, a Bebel interveio no João Gilberto. Puta que pariu! É uma alegoria viva da decadência da música brasileira. Quando é que vão intervir na mediocridade da geleia geral?



Fantasy Art - Galeria


Regeneration.
Daniel Miller.

terça-feira, 3 de abril de 2018

MARIAS LUÍSAS – gloriosas guerreiras




Pedro Lucas Lindoso


De repente o mundo se encheu de “gloriosas guerreiras” chamadas de Maria Luísa. Com “s” ou com  “z”, com elas  se pode  sempre contar, nas adversidades e nas batalhas.  É o que nos diz o Mr. Google. Conhecem?
Maria Luiza é uma senhora simpática e dinâmica. Única irmã dos muitos e valorosos irmãos Menezes. Eles fizeram história em Manaus: Aderbal, Alberto, Almir, meu padrinho Aderson, nosso inesquecível Armando de Menezes. Dona Maria Luiza, uma filha exemplar e irmã querida de todos eles.
Maria Luiza é a filha mais nova de meu amigo poeta, acadêmico e blogueiro Zemaria Pinto. Maria Luiza é muito inteligente, esperta e, mesmo sendo ainda uma garotinha, já produziu várias pérolas, colecionadas pela sua charmosa mãe, Tainá. Todas devidamente curtidas no Facebook.  Maria Luiza disse recentemente que vai ser “desenhadora” e não pintora. É uma figura. E muito lindinha também. Vamos continuar seguindo-a no Facebook para ver se será mesmo “desenhadora”, escritora, médica ou advogada. O futuro dirá.
A Maria Luísa minha neta é a única Luísa com “s” dessa turma formidável. Sou suspeito para falar dessa mocinha que tanto amamos. Fui aconselhado a me conter e ser razoável quando me referir à minha neta Maria Luísa. Tia Idalina me disse que eu estou não só um vovô “babão”, mas que estava me tornando ridículo. De tanto eu falar das proezas de nossa princesinha de dois anos de idade que titia, sarcástica como sempre, perguntou se a garotinha já estava cursando a Federal do Amazonas. Essa titia é fogo!
Por último, mas não menos importante, vou falar de Maria Luiza Brasil de Medeiros. Autora do livro “Pensamentos de mim, você e todos nós”, publicado pela Sejamos Luz.
O livro de Maria Luiza Medeiros nasceu de um “puxirum” organizado por seu editor, o escritor jornalista e advogado Júlio Antônio Lopes e seu sócio Cassius Clei Aguiar. Na linguagem dos caboclos amazônicos, “puxirum” é um mutirão. O puxirum pode ser para a construção de uma casa ou para fazer uma colheita. Ao puxirum do livro de Maria Luiza, uniram-se o designer Lo-Ammi Santos, o cartunista Elvis, o professor Jan Felmanian Martinont, que a descobriu como escritora. E ainda, a jornalista Isabelle Valois. Por meio de sua brilhante matéria no jornal Acrítica, Valois mostrou a vida, a história e a garra de Maria Luiza Brasil de Medeiros ao mundo.  Há os que souberam e fizeram torcida positiva para esse fantástico projeto. Dentre eles eu me incluo.
Maria Luiza Brasil me pediu que fizesse uma resenha de seu livro. Senti-me honrado com o pedido. Sou cronista. Não sei ser crítico literário. Do livro ressalto a frase: “sempre manter perto de si o celular e um caderno”.
Enquanto houver gente inteligente e sensível para escrever coisas belas e significativas, no celular ou num caderno, haverá literatura.
Ah, essas Marias Luísas, gloriosas guerreiras, amazonenses queridas, de diferentes idades, surpreendendo e encantando a todos nós. E ainda carregando o singelo nome de Maria, Mãe do Salvador.

segunda-feira, 2 de abril de 2018

Zona de Guerrilha Franca




Zemaria Pinto


14 – A oposição de Hollywood e Cannes à Netflix não é uma questão estética, mas tão somente de mercado. O cinema é apenas uma indústria. Arte é o filme. Não importa se assistido num pulgueiro ou na sala de jantar.

15 – Afinal, o inferno existe ou não? O papatrapalhado está ficando sem assunto. Em vez de uma leitura temporã de Nietzsche, seria mais proveitoso ler Grande sertão: veredas.

16 – (...) o demônio não precisa de existir para haver – a gente sabendo que ele não existe, aí é que ele toma conta de tudo. (pág 46, na minha edição, de 1983)

17 – Chico & Rita: jazz, boleros e rumbas, numa animação passada em uma Havana pré-revolucionária.

18 – A dupla caipira Dodge/Barrosão mandou os amigos do boss de volta para casa. Passaram a Páscoa em casa. Quase eu choro. A pergunta que não quer calar: o que o Lima não falou?

19 – Páscoa, dia das mães, dos pais, namorados, crianças, natal... Para o capital, esses possíveis sentimentos não passam de oportunidades de negócios.

20 – A natureza do capitalismo bestializa os homens. Après Guevara.


domingo, 1 de abril de 2018

Manaus, amor e memória CCCLXII


Praça Antônio Bitencourt, atual Praça do Congresso.

sábado, 31 de março de 2018

quinta-feira, 29 de março de 2018

Zona de Guerrilha Franca



Zemaria Pinto

1 – Finalmente o Brasil ganhou da Alemanha. Não em algum indicador econômico ou social. Apenas, no medíocre e descartável futebol.

2 – Marielle continua morta. E seus assassinos continuam impunes – e anônimos.

3 – Meirelles é candidato de si mesmo. Mas não terá nem o próprio voto, já prometido a Temer.

4 – Aliás, o desemprego, que vinha caindo em ritmo de toada, voltou a subir de forma metaleira: só em fevereiro, foram mais 550 mil pessoas desempregadas. Sem contar os venezuelanos. Efeito do carnaval? Ou da incompetência do Meirelles?

5 – “Voxê é uma pexoa horrrr-rrrí-velll” – e as senhoras (com o o fechado: ô) e os senhores do Supremo, cada vez mais abjetos.

6 – Como diria a Mãe Velha – quem com porcos anda, chafurda com eles.

7 – O mecanismo é ruim porque tem um roteiro primário e interpretações caricaturais – além daquele insuportável narrador, marca registrada do Padilha, que o utiliza para suprir a deficiência de sua narrativa visual.

8 – O delegado vivido por Selton Mello é tão inverossímil quanto o capitão Nascimento. A diferença é que o Wagner Moura dominou o capitão, enquanto Mello se deixou dominar pelo delegado, sussurrando quando deveria gritar, berrando quando deveria apenas falar alto. Histrionice involuntária é incompetência da direção.

9 – Afinal, como diria Hitchcock – ator é gado.

10 – Boicotar a netflix por causa de uma série de bosta é o mesmo que boicotar a coca-cloaca porque é um ícone do imperialismo.

11 – Eu não tomo coca-cloaca porque não gosto daquilo. Me dá ânsias de vômito. Sin embargo, coloquem no “google imagens” a consulta “che coca-cola” ou “fidel coca-cola”. Eles adoravam coca-cloaca. Mas a revolução cubana foi muito mais que essa relação entre os comandantes e a porra da cloaca.

12 – Prenderam os amigos do Temer. Como dizia minha avó – um homem sem amigos é um monturo. Com amigos, comparsas ou meros baba-ovos de ocasião, o Temer já nasceu monturo.

13 – Ovo de páscoa? Nem os meus.



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A trágica compreensão colonial do pajé



João Bosco Botelho


Desde os primeiros tempos do processo colonial, o pajé despertou especial vigilância do colonizador, sempre inserida numa trágica e deliberada compreensão.
Existem várias palavras que estruturam significados semelhantes desse personagem especial: pagi, pay, payni, paié, paé, piaecé, piaché, pantché podem ser entendidas messe contexto complexo. Parecem estar etimologicamente atadas à expressão pa-yé, aquele que diz o fim ou profeta. Stradelli reconheceu o pajé como sinônimo de paié: “É o médico, o conselheiro da tribo, o padre, o feiticeiro, o depositário autorizado da ciência tradicional. Pajé não é um qualquer. Só os fortes do coração, os que sabem superar as provas de iniciação, que têm o fôlego necessário para ser pajé”.
A trágica e agressiva compreensão social do pajé pode ser compreendida a partir da descrição feita por Gabriel Soares de Souza, que esteve no Brasi no final do século 16: “Entre esse gentil tupinambá, há grandes feiticeiros, que têm este nome entre eles, por lhe meterem em cabeça mil mentiras... A estes feiticeiros chamam os tupinambás pajés”.
Não existem registros precisos, nas fontes primárias do século 16, de como os pajés eram formados. É possível que a ascensão do iniciante se desse de vários modos. Entretanto, pelos relatos dos cronistas, os pajés precisavam mostrar competência no desempenho das múltiplas funções: êxito no tratamento das doenças, previsões do tempo e das colheitas, antever acontecimentos importantes relacionados com as guerras.
O pajé começava a acumular respeito no seio da comunidade a partir do momento em que se concretizava uma previsão esperada, como revelou Yvez d’Evreux: “A revelação do feiticeiro dependia de algum acidente ou caso fortuito: como, por exemplo, se anunciando as chuvas, estas caiam imediatamente depois. Se, ainda, tendo soprado algum doente, por ventura, recuperava a saúde, isto constituía um meio de ser logo respeitado e tido como feiticeiro de muita experiência”.
Algumas vezes a iniciação se efetivava através de ritual específico, como no presenciado por Hans Staden, durante o qual os tupinambás elevavam algumas mulheres na dignidade dos pajés: “Primeiramente, vão os selvagens a uma choça, tomam uma após outra todas as mulheres da habitação e incensam-nas. Depois deve cada uma gritar, saltar e correr em roda até ficar tão exausta que cai ao solo como morta. Então diz o feiticeiro: Vede. Agora está morta. Logo a porei viva de novo. Quando voltar a si está apta a predizer coisas futuras...”
O colonizador percebeu precocemente a relevância do pajé nas sociedades e estruturou rapidamente a certeza da absoluta necessidade de destruí-lo. Este fato é da maior relevância porque amparou parte importante do processo de substituição dos valores socioculturais dos índios pelos do colonizador.
Existem registros relevantes demostrando ações coordenadas atuando para enfraquecer o pajé. Um dos mais significativos é do capuchinho Claude d’Abbeville, no livro “História dos Padres Capuchinhos na Ilha do Maranhão e Terras Circunvizinhas”, publicado em Paris, em 1914: “Perdeu muita importância o ofício do pajé depois que chegamos ao país, tanto mais quanto em nossa companhia havia um jovem que sabia fazer peloticas com as mãos e muitas prestidigitações... Logo que os maranhenses viram as peloticas daquele rapaz, puseram-se a admirá-lo e chamá-lo de pajé-açu. Mostrou-lhes então o senhor de Rasilly que tudo se devia a certa habilidade, comparando-o com os pajés, demonstrou que estes não passaram de pelotiqueiros e embusteiros. Resultou disso muitos abandonarem as suas crenças e finalmente até crianças zombavam dos pajés”.
Outro comentário de grande importância é do jesuíta José de Anchieta, ainda mais agressivo: “Já não ousas agora servir de teus artifícios, perversos feiticeiros, entre povos que seguem a doutrina de Cristo: já não podes com mãos mentirosas esfregar membros doentes, nem, com lábios imundos, chupar as partes do corpo que os frios terríveis enregelam, nem as vísceras que ardem de febre, nem as lentas podagras, nem os braços inchados... Se te prender algum dia a mão dos guardas, gemerás em vingadora fogueira ou pagará em sujo cárcere o merecido castigo”.
Parece claro que na comunicação cristã empregada na conquista e ocupação dos novos territórios, a substituição do poder do pajé estava na primeira linha do ataque.
Este fato, por si só, é suficiente para comprovar a importância social do pajé nas sociedades indígenas, motivando o conquistador para destruí-lo, como essencial para assentar a nova ordem cristã.



quarta-feira, 28 de março de 2018

terça-feira, 27 de março de 2018

O silêncio de José



Pedro Lucas Lindoso


No dia 19 de março celebra-se São José. Há muitos devotos aqui no Amazonas. O santuário a ele dedicado é grande e muito frequentado. Provavelmente, essa devoção seja herança cultural dos milhares de cearenses que vieram para cá, enriquecendo-nos com sua cultura, crenças e tradições.
A figura bíblica de José é intrigante. Pessoalmente, eu já meditei muito sobre este mistério. José, noivo de Maria, é informado por um anjo do Senhor que sua futura esposa irá conceber uma criança que será o nosso Salvador. Diferente de Maria, que tem “falas” bíblicas, como: “Eis a serva do Senhor”, José obedece às instruções divinas num silencio totalmente obsequioso. Penso que todos nós homens, cristãos ou não, podemos ficar intrigados com a atitude de José.
Uma jovem amazonense, moradora da Zona Leste da cidade, também chamada Maria, apaixonou-se pelo rapaz errado. E dele engravidou. Essa manauara, Maria do século 21, que não é nenhuma santa, deu um passo errado, com o rapaz mais errado ainda. O moço foi assassinado pela violência inerente às disputas pelo tráfico de drogas na cidade.
A jovem Maria, apavorada, relatou o fato a sua mãe, que quase desmaiou. E disse à filha:
– Teu pai vai te matar. Vai te expulsar de casa!
Mãe e filha não tiveram alternativa a não ser relatar tudo àquele homem. Trabalhador e pai de família, também chamado José. Ambas apavoradas com a sua reação. Certamente ficaria violento ao saber que a filha de dezesseis anos estava grávida de um bandido.
O homem ouviu tudo. Uma lágrima rolou em seu rosto. Não disse absolutamente nada. Abraçou a mulher e a filha. Ambas espantadas com a reação do pai e marido. O homem continuou em silêncio.  Um silêncio tão obsequioso quanto o de São José. Mas diferente. Ali havia perdão.
O silêncio de São José e do José manauara só pode ser explicado no amor. Imenso amor a Deus e à vida.

domingo, 25 de março de 2018

Manaus, amor e memória CCCLXI


Cadeia Pública Raimundo Vidal Pessoa.

sábado, 24 de março de 2018

sexta-feira, 23 de março de 2018

quinta-feira, 22 de março de 2018

Serpente: o símbolo da medicina 2/2



João Bosco Botelho


De acordo com a mitologia grega, a medicina começou com Apolo, filho de Zeus com Leto. Apolo é reconhecido na literatura com dezenas de qualificações, além de deus curador. Foi também identificado como Aplous, aquele que fala a verdade. O poder dele era transmitido à água dos banhos que purificava a alma e por isto era considerado o deus que lavava e libertava o mal.
De modo geral, o herói grego estava associado à arte de curar. Grande número de deuses e personagens da mitologia grega tinham, entre os seus atributos, o dom de curar doenças e feridas de guerra.
Um dos filhos de Apolo, Asclépio, foi educado pelo centauro Quirão para ser médico. O centauro, metade homem e metade cavalo, possuía o completo conhecimento da música, magia, adivinhação, astronomia e da medicina, além de ter a maior habilidade entre todos, a ponto de manejar com igual beleza o bisturi e a lira.
Para os gregos, predominou a ideia de que Asclépio deificava a medicina na mitologia. Por esta razão, era celebrado em grandes festas públicas, próximas ao dia 18 de outubro do nosso calendário, data em que, até hoje, no Ocidente, se comemora o dia do médico.
Asclépio conquistou uma fama inimaginável. Muito mais cirurgião, ele criou as tiras, as ligaduras e as tentas para drenar as feridas. Chegou a ressuscitar os mortos e por essa razão foi fulminado por Zeus com os raios dos Ciclopes. Zeus matou Asclépio porque temia que a ordem natural das coisas fosse subvertida pelas curas e pela ressurreição dos mortos.
Asclépio deixou duas filhas, Hígia e Panaceia. A primeira representava a medicina preventiva e a higiene, e a segunda se notabilizou por curar os doentes com os segredos das plantas medicinais. Além delas, seus dois filhos, Machaon e Podalírio, foram médicos guerreiros, que se destacaram na guerra de Tróia e são citados nominalmente por Homero (Ilíada, 830).
Muitos afrescos retratando Asclépio produzidos no século 4 a.C., contêm uma serpente enrolada num bastão. É possível estabelecer duas imagens simbólicos que uniram a serpente à medicina. A primeira está ligada ao fato dela poder viver acima e abaixo da terra, mediando dois mundos diferentes, em estreito vínculo com a localização subterrânea do outro mundo. A segunda, mais importante, está associada ao renascimento por meio da renovação periódica da pele.

quarta-feira, 21 de março de 2018

terça-feira, 20 de março de 2018

O maior cunhado do mundo



Pedro Lucas Lindoso


O político brasileiro Leonel Brizola foi governador do Rio Grande do Sul. Após o exílio, retornou à vida pública como governador do Rio de Janeiro. Brizola era cunhado do presidente João Goulart, deposto pelos militares em 31 de março de 1964. Apesar de correligionário e cunhado do ex-presidente, Brizola teria afirmado que: “cunhado não é parente”.
Meu amigo Dr. Chaguinhas acha que Brizola estava certíssimo. Após a morte de sua sogra, o irmão mais novo de sua esposa aboletou-se em sua casa. O rapaz é nem-nem. Nem trabalha nem estuda. Segundo Chaguinhas, o moço é sem noção. “Metido, enxerido e apresentado”, como diz o caboclo amazonense. Chaguinhas também acha que cunhado não é parente e já solicitou que o rapaz se mude de sua casa o mais breve possível.
Já um ilustre magistrado conhecido de Chaguinhas, muito zeloso e ético, deu-se por impedido num processo judicial entre duas empresas de energia. Motivo: verificou que o nome de um dos seus cunhados constava do substabelecimento de procuração de uma das partes, entre dezenas de outros advogados.
Afinal, Brizola tinha ou não razão?  Cunhado é ou não parente?
Vejo com alegria que minha filha e minha nora se tratam carinhosamente de “cunha”, diminutivo moderno de “cunhada”.
Também tenho uma cunhada que muito admiro e de quem sou fã. Maria José Silveira, esposa de meu irmão mais velho, Felipe Lindoso. Zezé, como a tratamos carinhosamente, é uma escritora fenomenal. Tem vários romances publicados, entre eles “A Mãe da Mãe de sua Mãe e suas Filhas”, com o qual recebeu o Prêmio Revelação da APCA, 2002. O romance mostra a história de uma linhagem de mulheres ao longo dos 500 anos da história do Brasil. A minha cunhada querida agora é sucesso nos Estados Unidos com a publicação de “Her Mother's Mother's Mother and Her Daughters”. Podem adquirir pela Amazon.
E quando o assunto é cunhados e americanos, lembrei-me de inusitada pergunta de um diplomata americano em Brasília. O que seria “concunhado”?
Com razoável conhecimento de Inglês, fiquei impactado. Não consegui uma tradução literal. E em dúvida. Seria o marido da irmã de sua mulher ou o irmão de seu cunhado, marido de sua irmã? Em Inglês não existe a palavra concunhado.
Se para Brizola e Chaguinhas cunhado não é parente, a fortiori, concunhados!
Para os católicos, as freiras são esposas de Jesus. Tenho uma irmã de sangue que é religiosa salesiana. Sem querer cometer heresia: eu e meus irmãos temos o maior cunhado do mundo!